sexta-feira, 31 de outubro de 2008

FILOSOFIA E CIÊNCIA: LIGAÇÕES PERIGOSAS

A importância da filosofia como forma de saber sobre o mundo é expressa na obra de Galeno, ao defender que o melhor médico deve ser também filósofo. Isso quer dizer que para se realizar um diagnóstico correto de um paciente era necessário não apenas ter conhecimentos de anatomia (as atividades do corpo), mas também de lógica (as atividades da razão).

FILOSOFIA E CIÊNCIA: LIGAÇÕES PERIGOSAS
No século XX, a ciência é considerada o discurso mais eficaz sobre a realidade, e a filosofia, apenas uma ciência auxiliar, uma coadjuvante na busca do conhecimento. Todavia, nem sempre a filosofia teve esse papel subordinado à ciência. A filosofia foi durante muito tempo ela mesma o discurso mais completo e rico sobre o real. Já foi considerada como ciência, e não uma ciência qualquer, mas a rainha de todas as ciências. A imagem dos primeiros pensadores, tais como Tales, Pitágoras, Platão ou Aristóteles, coincidia com a dos cientistas, pois eles eram também físicos, botânicos, químicos, astrónomos, etc. Fazer filosofia era a forma mais refinada de estudar o mundo.

Galeno é considerado um dos pais da medicina e viveu de 129 a 204 d.C. Durante cinco anos (157-162 d.C.) cuidou da saúde dos gladiadores do imperador Marco Aurélio em Pérgamo. Através dessa atividade excepcional, comparável em status à dos atuais médicos das seleções nacionais de futebol, salvou diversas vidas e desenvolveu novas formas de tratamento de feridas causadas por armas.

A lógica (do grego Lógos = palavra, pensamento) é a disciplina da filosofia que estuda o modo correto de pensar. Aristóteles sistematizou no seu escrito Analíticos Primeiros (c. 350 a.C.) os tipos perfeitos de silogismos: "discursos em que, dadas algumas coisas, outras derivam necessariamente" (Analíticos Pr., 1,1, 24b). Os silogismos são raciocínios dedutivos, isto é, a partir de uma ou mais premissas deduz-se a conclusão (sem precisar recorrer à experiência ou à observação da natureza). O mais famoso exemplo de silogismo diz: "Todos os homens são mortais [premissa I]; Sócrates é homem [premissa II]; logo, Sócrates é mortal [conclusão]". Para investigar adequadamente o mundo era fundamental aprender o uso adequado do raciocínio, evitando assim as falácias, discursos aparentemente lógicos, mas que levam a conclusões paradoxais ou desagradáveis. As falácias podem ter um efeito cómico, como no seguinte exemplo: "Deus é amor. O Amor é cego. Stevie Wonder (cantor norte-americano) é cego. Logo, Stevie Wonder é Deus." As falácias podem ser perigosas quando procuram intencionalmente induzir ao erro. Neste caso, são chamadas de sofismas e são muito comuns na retórica da mídia e da política.

Para se fazer ciência na Antiguidade, era necessário pensar filosoficamente, quer dizer, contemplar e refletir dedutivamente. Com o passar do tempo ocorreu um processo de dogmatização, isto é, aos poucos a atividade de pensar foi substituída pelo mero comentário aos escritos dos filósofos antigos, principalmente os de Platão e Aristóteles. Na Idade Média a busca do conhecimento não podia entrar em choque com o Órganon (conjunto de textos aristotélicos) ou com a Bíblia (conjunto de escrituras sagradas), ambos considerados fontes de verdades absolutas. A assim chamada "ciência moderna" surgiu como um ato de resistência contra o dogmatismo, contra a autoridade atribuída ao aristotelismo e à f é religiosa. Buscando maior autonomia na investigação do mundo, instalaram-se um novo modelo de ciência e um novo modelo de mundo, inaugurando o que se chamou revolução científica dos séculos XVI e XVII.


A CIÊNCIA MODERNA

A famosa revolução copernicana, determinando a mudança do modelo geocêntrico (que pressupõe a Terra como centro do sistema do universo) para o sistema heliocêntrico (que coloca o Sol como centro do sistema planetário) é o principal símbolo da passagem da ciência antiga para a ciência moderna. A imagem religiosa que colocava o homem como o máximo da criação começou a ser abalada. A nova ciência distingue-se da antiga por uma mudança de método e de objetivos. Fazer ciência a partir do século XVI implica agora não apenas descrever como as coisas são, mas principalmente como as coisas funcionam. O mundo passa a ser visto como uma espécie de mecanismo cuja estrutura pode ser decifrada através da matemática. Segundo Galileu Galilei (1564-1642) - um dos fundadores da ciência moderna -, real é tudo aquilo que possa ser medido e quantificado.

Outro progresso importante é a substituição do método antigo da dedução pela indução. Ao invés de partir de leis gerais (do tipo "todos os homens são mortais") para os casos particulares ("Sócrates é mortal"), parte-se agora de casos particulares ("em dez experimentos a água ferveu a 100° C") e vai-se ascendendo até as leis de máxima generalidade ("A temperatura de fervura da água é sempre de 100° C"). Serão considerados verdadeiros somente os discursos que possam ser comprovados pela experiência.

A principal consequência da revolução moderna foi a separação da ciência frente à filosofia. A filosofia clássica perdeu o lugar de destaque como rainha do saber e passou a ser considerada como um obstáculo para o progresso da civilização. A ciência assume o posto de expressão máxima da civilização. Trata-se de uma crise sem precedentes para a filosofia, que precisou reavaliar seus pressupostos e suas metas, lá que não era mais possível dizer a verdade sobre as coisas, afinal essa tarefa estava reservada agora para a ciência, então ao menos a filosofia poderia fazer algo que a ciência não pode fazer: pensar os fundamentos da própria verdade.
Na modernidade a filosofia começou a se tornar epistemologia (do grego episteme = ciência), quer dizer, teoria do conhecimento científico. Essa transformação se manifesta, por exemplo, na obra do filósofo inglês John Locke (1632-1704). No seu Ensaio sobre o Entendimento Humano (1690), ele realiza uma investigação sobre a natureza das ideias na nossa mente, afirmando que elas não são inatas (não nascemos com elas), mas têm sua origem na nossa experiência sensível com o mundo. A questão da filosofia não é mais buscar o conhecimento da verdade, mas buscar a verdade do próprio conhecimento. Um pouco mais tarde, o filósofo alemão Kant estabelecerá que filosofia não deve mais produzir saber, mas se tornar um saber do saber, instaurando uma espécie de "tribunal da razão", "que tem por fim não o aumento dos nossos conhecimentos, mas a retificação dos mesmos" (Crítica da Razão Pura [1781], Introdução, VII). O objetivo da filosofia passa a ser então ajudar a evitar que o erro irrompa no trabalho do cientista.

A imagem do filósofo na era moderna é como a de um sentinela ou farol alertando com sua luz contra os possíveis desvios da ciência de seu caminho da racionalidade. Francisco de Goya - 1746-1828 - O Sono da Razão Produz Monstros (1796-1797).



QUESTIONÁRIO


1. Na Antiguidade, qual era a ligação entre filosofia e ciência?

2. Na Grécia antiga, como funcionava a ciências? E na Idade Média?

3. De que maneira a ciência se separou da filosofia? Descreva.

4. Comente sobre o método filosófico e o método científico.

5. O que compete à ciência? O que restou para a filosofia?

6. O que você pode concluir sobre o tema estudado?

terça-feira, 7 de outubro de 2008

FILOSOFIA DA CIÊNCIA

A ciência não explica tudo. Ela tem limi­tes, mas é o conhecimento mais adequado desenvolvido pela razão humana para tentar resolver os seus problemas. Só é científico o conhecimento que garante a sua validade. As universidades formam os cientistas. Eles são profissionais que aplicam métodos deter­minados, para tentar desenvolver conhecimen­tos destinados a melhorar a vida do homem. A ciência é muito importante, pois, sem pesquisa, não teríamos remédios, equipamen­tos médicos, luz elétrica, computadores, car­ros, satélites e muitas outros objetos de que precisamos para viver. Os limites da ciência são os conhecimentos racionais e experimentais (empíricos), pois, fora deles, a ciência não pode afirmar nada.

Mitos e deuses

Quando surgiu a ciência? Esta parece ser uma pergunta simples. Contudo, tem freqüentemente dado origem a longas discussões. Discussões que acabam quase sempre por se deslocar para uma outra pergunta mais básica: o que é a ciência? Mais básica, pois a resposta para aquela depende da solução encontrada para esta. Ora, o termo "ciência" nem sempre foi entendido da mesma maneira e ainda hoje as opiniões acerca do que deve ou não ser considerado como científico continuam divididas. Uma definição rigorosa e consensual de ciência é, pois, algo difícil de estabelecer. Mas isso não nos deve impedir de avançar. Assim, a melhor maneira de começar talvez seja a de correr o risco de propor uma definição de ciência que, apesar de imprecisa, nos possa servir como ponto de partida, mesmo que venha depois a ser corrigida: a ciência da natureza é o estudo sistemático e racional, baseado em métodos adequados de prova, da natureza e do seu funcionamento. Muitas das perguntas mais elementares que os seres humanos colocam a si próprios desde que são seres humanos são perguntas que podem dar origem a estudos científicos. Eis alguns exemplos dessas perguntas: Porque é que chove? O que é o trovão? De onde vem o relâmpago? Por que razão crescem as ervas? Por que razão existem os montes? Por que razão tenho fome? Por que razão morrem os meus semelhantes? Porque é que cai a noite e a seguir vem o dia de novo? O que são as estrelas? Por que razão voam os pássaros?... Mas estas perguntas podem dar origem também a outro tipo de respostas que não as científicas; podem dar origem a respostas de caráter religioso e mítico. Essas respostas têm a característica de não se basearem nos métodos mais adequados e de não serem o produto de estudos sistemáticos. Uma resposta mítica ou religiosa apela à vontade de um Deus ou de deuses e conta uma história da origem do universo. Essa resposta não se baseia em estudos sistemáticos da natureza, mas antes na observação diária não sistemática; e não são estudos racionais dado que não encorajam a crítica, mas antes a aceitação religiosa. Isto não quer dizer que as respostas míticas e religiosas não tivessem qualquer valor. Por exemplo, é óbvio que numa altura em que a ciência, com os seus métodos racionais de prova, ainda não estava desenvolvida, as explicações míticas e religiosas eram pelo menos uma maneira de responder à curiosidade natural dos seres humanos. Além disso, as explicações míticas e religiosas de um dado povo dão a esse povo uma importância central na ordem das coisas. E têm ainda outra característica importante: essas explicações constituem muitas vezes códigos de conduta moral, determinando de uma forma integrada com a origem mítica do universo, o que se deve e o que não se deve fazer. As explicações míticas e religiosas foram antepassados da ciência moderna, não por darem importância central aos seres humanos na ordem das coisas nem por determinarem códigos de conduta baseados na ordem cósmica, mas por ao mesmo tempo oferecerem explicações de alguns fenômenos naturais — apesar de essas explicações não se basearem em métodos adequados de prova nem na observação sistemática da natureza.

Os primeiros filósofos-cientistas

A ciência da natureza é diferente do mito e da religião. A ciência baseia-se em observações sistemáticas, é um estudo racional e usa métodos adequados de prova. Como é natural, os primeiros passos em direção à ciência não revelam ainda todas as características da ciência — revelam apenas algumas delas. O primeiro, e tímido, passo na direcção da ciência só foi dado no início do séc. VI a. C. na cidade grega de Mileto, por aquele que é apontado como o primeiro filósofo, Tales de Mileto. Tales de Mileto acreditava em deuses. Só que a resposta que ele dá à pergunta acerca da origem ou princípio de tudo o que vemos no mundo já não é mítica; já não se baseia em entidades sobrenaturais.. Dizia Tales que o princípio de todas as coisas era algo que por todos podia ser diretamente observado na natureza: a água. Tendo observado que a água tudo fazia crescer e viver, enquanto que a sua falta levava os seres a secar e morrer; tendo, talvez, reparado que na natureza há mais água do que terra e que grande parte do próprio corpo humano era formado por água; verificando que esse elemento se podia encontrar em diferentes estados, o líquido, o sólido e o gasoso, foi assim levado a concluir que tudo surgiu a partir da água. A explicação de Tales ainda não é científica; mas também já não é inteiramente mítica. Têm características da ciência e características do mito. Não é baseada na observação sistemática do mundo, mas também não se baseia em entidades míticas. Não recorre a métodos adequados de prova, mas também não recorre à autoridade religiosa e mítica. Este último aspecto é muito importante. Consta que Tales desafiava aqueles que conheciam as suas idéias a demonstrar que não tinha razão. Esta é uma característica da ciência — e da filosofia — que se opõe ao mito e à religião. A vontade de discutir racionalmente idéias, ao invés de nos limitarmos a aceitá-las, é um elemento sem o qual a ciência não se poderia ter desenvolvido. Uma das vantagens da discussão aberta de idéias é que os defeitos das nossas idéias são criticamente examinados e trazidos à luz do dia por outras pessoas. Foi talvez por isso que outros pensadores da mesma região surgiram apresentando diferentes teorias e, deste modo, se iniciou uma tradição que se foi gradualmente afastando das concepções míticas anteriores. Assim apareceram na Grécia, entre outros, Anaximandro (séc. VI a. C.), Heráclito (séc. VI/V a. C.), Pitágoras (séc. VI a. C.), Parmênides (séc. VI/V a. C.) e Demócrito (séc. V/IV a. C.). Este último viria mesmo a defender que tudo quanto existia era composto de pequeníssimas partículas indivisíveis (atomoi), unidas entre si de diferentes formas, e que na realidade nada mais havia do que átomos e o vazio onde eles se deslocavam. Foi o primeiro grande filósofo naturalista, que achava que não havia deuses e que a natureza tinha as suas próprias leis. As ciências da natureza estavam num estado primitivo; pouco mais eram do que especulações baseadas na observação avulsa. Mas as ciências matemáticas começaram também desde cedo a desenvolver-se, e apresentaram desde o início muitos mais resultados do que as ciências da natureza. Pitágoras, por exemplo, descobriu vários resultados matemáticos importantes, e o nome dele ainda está associado ao teorema de Pitágoras da geometria (apesar de não se saber se terá sido realmente ele a descobrir este teorema, se um discípulo da sua escola). A escola pitagórica era profundamente mística; atribuía aos números e às suas relações um significado mítico e religioso. Mas os seus estudos matemáticos eram de valor, o que mostra mais uma vez como a ciência e a religião estavam misturadas nos primeiros tempos. Afinal, a sede de conhecimento que leva os seres humanos a fazer ciências, religiões, artes e filosofia é a mesma. O maior desenvolvimento das ciências matemáticas teve repercussões importantíssimas para o desenvolvimento da ciência, para a filosofia da ciência e para a filosofia em geral. Os resultados matemáticos tinham uma característica muito diferente das especulações sobre a origem do universo e de todas as coisas. Ao passo que havia várias idéias diferentes quanto à origem das coisas, os resultados matemáticos eram consensuais. Eram consensuais porque os métodos de prova usados eram poderosos; dada a demonstração matemática de um resultado, era praticamente impossível recusá-lo. A matemática tornou-se assim um modelo da certeza. Mas este modelo não é apropriado para o estudo da natureza, pois a natureza depende crucialmente da observação. Além disso, não se pode aplicar a matemática à natureza se não tivermos à nossa disposição instrumentos precisos de quantificação, como o termômetro ou o cronômetro. Assim, o sentimento de alguns filósofos era (e por vezes ainda é) o de que só o domínio da matemática era verdadeiramente «científico» e que só a matemática podia oferecer realmente a certeza. Só Galileu e Newton, já no século XVII, viriam a mostrar que a matemática se pode aplicar à natureza e que as ciências da natureza têm de se basear noutro tipo de observação diferente da observação que até aí se fazia.

O nascimento da ciência moderna: Galileu

O que acaba de se referir contribuiu para o aparecimento de uma nova ciência, mas o seu fundador, como começou por se assinalar, foi Galileu. Há três tipos de razões que fizeram de Galileu o pai de uma nova forma de encarar a natureza: em primeiro lugar, deu autonomia à ciência, fazendo-a sair da sombra da teologia e da autoridade livresca da tradição aristotélica; em segundo lugar, aplicou pela primeira vez o novo método, o método experimental, defendendo-o como o meio adequado para chegar ao conhecimento; finalmente, deu à ciência uma nova linguagem, que é a linguagem do rigor, a linguagem matemática. Ao dar autonomia à ciência, Galileu a fez verdadeiramente nascer. Embora na altura se lhe chamasse «filosofia da natureza», era a ciência moderna que estava a dar os seus primeiros passos. Antes disso, a ciência ainda não era ciência, mas sim teologia ou até metafísica. A verdade acerca das coisas naturais ainda se ia buscar às Escrituras e aos livros de Aristóteles. E não foi fácil a Galileu quebrar essa dependência, tendo que se defender, após a publicação do seu livro Diálogo dos Grandes Sistemas, das acusações de pôr em causa o que a Bíblia dizia. Esta carta de Galileu é bem disso exemplo: Posto isto, parece-me que nas discussões respeitantes aos problemas da natureza, não se deve começar por invocar a autoridade de passagens das Escrituras; é preciso, em primeiro lugar, recorrer à experiência dos sentidos e a demonstrações necessárias. Com efeito, a Sagrada Escritura e a natureza procedem igualmente do Verbo divino, sendo aquela ditada pelo Espírito Santo, e esta, uma executora perfeitamente fiel das ordens de Deus. Ora, para se adaptarem às possibilidades de compreensão do maior número possível de homens, as Escrituras dizem coisas que diferem da verdade absoluta, quer na sua expressão, quer no sentido literal dos termos; a natureza, pelo contrário, conforma-se inexorável e imutavelmente às leis que lhe foram impostas, sem nunca ultrapassar os seus limites e sem se preocupar em saber se as suas razões ocultas e modos de operar estão dentro das capacidades de compreensão humana. Daqui resulta que os efeitos naturais e a experiência sensível que se oferece aos nossos olhos, bem como as demonstrações necessárias que daí retiramos não devem, de maneira nenhuma, ser postas em dúvida, nem condenadas em nome de passagens da Escritura, mesmo quando o sentido literal parece contradizê-las. (Galileu, Carta a Cristina de Lorena) Foi também Galileu quem, na linha de Bacon, utilizou pela primeira vez o método experimental, o que lhe permitiu chegar a resultados completamente diferentes daqueles que se podiam encontrar na ciência tradicional. Um exemplo do pioneirismo de Galileu na utilização do método experimental é o da utilização do famoso plano inclinado, por si construído para observar em condições ideais (ultrapassando os obstáculos da observação direta) o movimento da queda dos corpos. Pôde, desse modo, repetir as experiências tantas vezes quantas as necessárias e registrar meticulosamente os resultados alcançados. Tais resultados devem-se, ainda, a uma novidade que Galileu acrescentou em relação ao método indutivo de Bacon: o raciocínio matemático. A ciência não poderia mais construir-se e desenvolver-se tendo por base a interpretação dos textos sagrados; mas também não o poderia fazer por simples dedução lógica a partir de dogmas teológicos: Ao cientista só se deve exigir que prove o que afirma. (...) Nas disputas dos problemas das ciências naturais, não se deve começar pela autoridade dos textos bíblicos, mas sim pelas experiências sensatas e pelas demonstrações indispensáveis. (Galileu, Audiência com o Papa Urbano VIII) Tratava-se de uma ciência cujas verdades deveriam ter um conteúdo empírico e que podiam ser não só expressas, mas também demonstradas numa linguagem já não qualitativa mas quantitativa: a linguagem matemática. Foi o que aconteceu quando Galileu, graças ao referido plano inclinado, pôs em prática o novo método e começou a investigar o movimento natural dos corpos. O resultado foi formular uma lei universal expressa matematicamente, o que tornava também possível fazer previsões. Diz ele: Não há, talvez, na natureza nada mais velho que o movimento, e não faltam volumosos livros sobre tal assunto, escritos por filósofos. Apesar disso, muitas das suas propriedades (...) não foram observadas nem demonstradas até ao momento. (...) Com efeito, que eu saiba, ninguém demonstrou que o corpo que cai, partindo de uma situação de repouso, percorre em tempos iguais, espaços que mantêm entre si uma proporção idêntica à que se verifica entre os números ímpares sucessivos começando pela unidade. (Galileu, As Duas Novas Ciências) A velocidade da queda dos corpos (queda livre) é de tal modo apresentada que pode ser rigorosamente descrita numa fórmula matemática. Não seria possível fazer ciência sem se dominar a linguagem matemática. Metaforicamente, é através da matemática que a natureza se exprime: A filosofia está escrita neste grande livro que está sempre aberto diante de nós: refiro-me ao universo; mas não pode ser lido antes de termos aprendido a sua linguagem e de nos termos familiarizado com os caracteres em que está escrito. Está escrito em linguagem matemática e as letras são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem as quais é humanamente impossível entender uma só palavra. (Galileu, Il Saggiatore) A descrição matemática da realidade, característica da ciência moderna, trouxe consigo uma idéia importante: conhecer é medir ou quantificar. Nesse caso, os aspectos qualitativos não poderiam ser conhecidos. Também as causas primeiras e os fins últimos aristotélicos, pelos quais todas as coisas se explicavam, deixaram de pertencer ao domínio da ciência. Com Galileu a ciência aprende a avançar em pequenos passos, explicando coisas simples e avançando do mais simples para o mais complexo. Em lugar de procurar explicações muito abrangentes, procurava explicar fenômenos simples. Em vez de tentar explicar de forma muito geral o movimento dos corpos, procurava estudar-lhe as suas propriedades mais modestas. E foi assim, com pequenos passos, que a ciência alcançou o tipo de explicações extremamente abrangentes que temos hoje. Inicialmente, parecia que a ciência estava mais interessada em explicar o «como» das coisas do que o seu «porquê»; por exemplo, parecia que os resultados de Galileu quanto ao movimento dos corpos se limitava a explicar o modo como os corpos caem e não a razão pela qual caem; mas, com a continuação da investigação, este tipo de explicações parcelares acabaram por se revelar fundamentais para se alcançar explicações abrangentes e gerais do porquê das coisas — só que agora estas explicações gerais estão solidamente ancoradas na observação e na medição paciente, assim como na descrição pormenorizada de fenômenos mais simples.
Ciências Humanas e Filosofia A relação entre as Ciências Humanas e a Filosofia é de tal monta que a síntese mais simples e direta ainda reside no já clássico conceito humanista, assim formulado por Lucien Goldman, precisamente num livro intitulado Ciências Humanas e Filosofia, da Editora Difel: “Se a Filosofia traz respostas quanto ao ser do Homem no mundo as Ciências Humanas têm de ser obrigatoriamente filosóficas caso pretendam ser científicas!” Nas ciências naturais, hoje em dia há uma concordância generalizada com relação aos termos propostos para o debate (outras eram as condições, por exemplo, na Idade Média européia, quando dizer, por exemplo, “A Terra se Move” ou “A Terra é Redonda!” poderia levar o cientista à incineração!) Não existe a menor possibilidade de se ministrar aulas “neutras” em Ciências Humanas. O fundamento científico das Humanas reside precisamente em opiniões profundamente arraigadas (tanto que, via de regra, sequer como tal são reconhecidas!). Assemelhar o revolucionário ao criminoso contribui para o pensamento conservador. Por outro lado, anunciar o “pós-modernismo” como “a nova cara do velho demônio”, contribui para o humanismo, as teorias libertárias: nada pior aconteceu com a filosofia nas últimas décadas que esta invenção verdadeiramente diabólica: ressuscitar velhas teorias conservadoras recapeadas com nomes “simpáticos” como “neo” ou “pós”-seja-lá-o-que-for. Dizem que os cientistas da área de Naturais quando se encontram, trocam “informações” – “descobri a partícula x”, “consegui dissecar tal ou qual parte do átomo”, “há uma nova equação que permite resolver tal problema”, etc. Quando cientistas da área de Humanas se encontram, em geral, trocam “insultos” – “Positivista!”, “Marxista!”, “Liberal!”, “Comunista!”, etc. Não fujo à regra: daqui da esquerda e do humanismo, vejo o irracionalismo de tudo o que recebe os prefixos “neo” e “pós” – neoliberalismo, pós-modernismo, pós-capitalismo e o denuncio onde encontro! A exatidão das Ciências Naturais vem sendo questionada mais e mais. Hoje se prefere chamá-las simplesmente de “Naturais”. Como imaginar a matemática como uma ciência “exata” se é fundamentada em postulados arbitrários e chega a hipercubos e geometria multiplana não existentes em nossa dimensão? Qual a exatidão disso? Na física, pior ainda: ao se resolver um problema qualquer aparece no postulado coisas como: “desprezar a resistência do ar” ou “imaginar atrito igual zero”. Mas o ar não oferece resistência? O atrito não existe de fato? Qual a “exatidão” de uma ciência que despreza as coisas reais? A Filosofia está na raiz das Ciências Humanas. Entre os sociólogos, particularmente os positivistas e weberianos (assumidos ou não...) recomenda-se “afastar sistematicamente as pré-noções” ou “evitar juízos de valor”, ou seja, as opiniões. Acontece que são precisamente os juízos de valor que aparecem no início da pesquisa em Ciências Sociais! Em outras palavras, é a partir de uma opinião solidamente formada que se parte em busca de respostas. Aqueles que têm formação libertária ou socialista partem suas pesquisas da premissa que o ser humano é mais importante que a propriedade. Aqueles que têm formação burguesa partem da premissa de que não é conveniente – paroxisticamente partem do pressuposto ou da pré-noção de que “não é possível” – efetivar transformações na direção da valorização do humano. Lucáks chama a isso “pessimismo defensivo”. Com vistas a arrefecer os ânimos daqueles a quem deseja controlar partem do pressuposto (hoje deploravelmente obrigatório em praticamente todos os estabelecimentos de ensino superior) de que “não tem jeito”, “sempre foi assim e assim sempre será” e outros pseudo-alegatos hoje mais aceitos que as Tábuas da Lei o eram pelos seguidores de Moisés. Ora, nas ciências humanas, a desconsideração com respeito à filosofia ou à psicologia humanas redunda simplesmente falseadora da realidade, conducente a teorias estapafúrdias, ou seja, à negação da ciência.
CIÊNCIAS FORMAIS: ESTUDOS DE IDÉIAS (LÓGICA, MATEMÁTICA)

A Computação é uma ciência e existem três grupos distintos de ciências. A saber: 1. Ciências formais, como a Matemática e a Lógica, que são constituídas por sistemas formais. Um sistema formal é uma realidade de ordem ideal. As ciências formais operam com objetos, claramente representados, criados pela mente. Por exemplo, os números na matemática. 2. Ciências empírico-formais, como a Física, Química e outras. São as ciências que remetem à experiência empírica, visam o mundo físico, ao mesmo tempo que se utilizam de um aparelho teórico fornecido pelas ciências formais. 3. Ciências hermenêuticas, as chamadas ciências humanas, como a Sociologia, a História e o Direito. Estas ciências utilizam-se do formalismo e da experiência que estão presentes nos outros dois grupos, mas acrescentam algo mais: significação e valores humanos aos elementos de natureza quantitativa. A significação se revela através de um processo de interpretação. Por exemplo, uma taxa de crescimento populacional negativa (que é um dado empírico-formal), pode significar para o pesquisador, analisando-se as circunstâncias de vida social, a desconfiança daquela população em relação ao futuro. Noutras palavras, isso pode significar que ninguém quer ter filhos pois não vê perspectivas de uma vida melhor para eles. A Ciência da Computação, pela sua natureza, é uma ciência empírico-formal e está mais próxima do grupo das ciências formais do que das ciências hermenêuticas. Mas o que tudo isto tem a ver com tecnocracia? Muito, doutores! Muito! Observa-se, com espanto, o comportamento de alguns profissionais e estudiosos da área de computação, ao enaltecerem um software ou outro, baseado em raciocínios simplistas como: este sistema operacional é melhor do que aquele, pois o algoritmo de escalonamento de processos na CPU é tecnicamente melhor. Ou então, este software é melhor, porque foi desenvolvido por PhD`s, e aquele outro por técnicos que visavam mais o lucro no mercado. Neste tipo de raciocínio prevalece o conhecimento científico formal e, na melhor das hipóteses, o empírico-formal. Enfim, a tecnocracia está instaurada. Ignoram-se todos os outros elementos significativos como, por exemplo, o fato de que o usuário brasileiro prefere utilizar um programa (não um software) e ler a Ajuda (não o Help) em português bem claro.


segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Felicidade... é possível???

O estudo da moral constituiu sempre uma das principais preocupações da vida de Kant. Embora percorra quase toda a sua obra, há quatro onde a moral ocupa mais espaço: Crítica da Razão Prática, Estabelecimento da Metafísica dos Costumes e Crítica da Faculdade de Julgar e A Paz Perpétua e Outros Opúsculos. Quase todas as suas obras foram influenciadas pelas crenças pietistas que marcaram a educação de Kant. A fé no dever, o rigorismo moral, o culto da intenção moral e a convicção da superioridade da prática sobre a dogmática foram o ponto de partida da filosofia kantiana. O conceito de dever ocupa um lugar central na moral kantiana. O que é que o filósofo prussiano entende por dever? Na colectânea de escritos A Paz Perpétua e Outros Opúsculos, encontramos a seguinte definição: " o conceito de dever não precisa, para se fundar, de nenhum fim particular mas que, pelo contrário, suscita um outro fim para a vontade do homem, a saber: contribuir por todos os meios para o soberano bem possível no mundo ( a felicidade geral no universo, associada à mais pura moralidade e conforme com ela); o que, por estar sem dúvida em nosso poder de um lado, mas não dos dois, impõe à razão a fé num senhor moral do universo e numa vida futuro, do ponto de vista prático" (Kant, 1988, 62). Um pouco mais à frente, Kant dirá que o dever nada mais é do que a restrição da vontade à condição de uma legislação universal. Um outro conceito central na doutrina moral de Kant é o de felicidade. A escrita de Kant nem sempre prima pela necessária clareza, sendo por vezes de difícil interpretação, graças ao abuso de parágrafos longos. Daí que o conceito de felicidade, como outros conceitos, têm sido objecto de interpretações díspares. Kant define moral como a ciência que nos ensina como devemos, não tornar-nos felizes, mas dignos de felicidade. Seguindo uma tradição que remonta a Platão e a Aristóteles, Kant considera também que o fim do Homem é a procura da felicidade. Contudo, não subordina o dever à procura da felicidade, antes relaciona dever e felicidade, considerando que o cumprimento do dever é caminho para a felicidade. Kant não exige a renuncia à felicidade em troca do cumprimento do dever, porque não coloca dever e felicidade em oposição, apesar de considerar o mandamento do dever em toda a sua autoridade, o qual exige uma obediência incondicional, que se basta a si própria e não precisa de nenhuma outra influência. O dever é condição do soberano bem e este não é mais do que a felicidade geral, associada à mais pura moralidade e conforme a ela. Raymond Vancourt (1995, 31) enuncia, assim, a importância central da moral no pensamento kantiano: "O pietismo persuadira-o dessa importância, revelando-lhe a pura inspiração moral, a consciência da disciplina obrigatória, da lei mais repressiva, o sentimento do mal a vencer; ao ensinar-lhe que o autêntico valor do homem consiste menos nos talentos e nas riquezas, que numa vontade submetida ao dever e espiritualmente regenerada". Vancourt (1995) reconhece a enorme influência de Rousseau na génese da moralidade kantiana, nomeadamente a noção de que a moral não depende do progresso das ciências e das artes, porque estas não nos tornam necessariamente nem mais felizes nem moralmente melhores. Se a moral não depende da ciência, será que é acessível a qualquer um? Kant responde pela afirmativa, acentuando a importância da boa vontade e da reflexão na construção da moralidade. À semelhança de Sócrates e de Platão, o filósofo prussiano revela enorme confiança no papel da reflexão e do juízo prático dos homens na construção de uma moralidade autónoma. Ao contrário de Aristóteles, que colocava o hábito no centro da moralidade e identificava a moral com um conjunto de virtudes, Kant privilegia o raciocínio e a ideia de bem. A coragem, a honestidade, a perseverança e o domínio de si não são, para Kant, valores morais, porque, apesar de constituírem vantagens, não indicam, por si próprios, o que se pode fazer com eles e, por isso, tanto podem ser utilizados para o bem como para o mal. Haverá alguma coisa que possa ser considerada absolutamente bom e de que seja impossível fazer mau uso? Para Kant, só a boa vontade responde a essas exigências. A consciência moral, na perspectiva kantiana, não julga a moralidade dos actos pelos seus resultados, mas pela intenção. É a boa vontade que nos permite dar relevo à intenção e esta é o critério supremo da acção moral. Qual a intenção que deve mover a boa vontade? Para Kant, a resposta encontra-se no respeito pelo dever. Contudo, o respeito pelo dever tanto pode expressar um simples cumprimento da lei, como a moralidade. Será um mero cumprimento da lei, quando a pessoa se limita a agir de acordo com a lei e as normas, as quais são exteriores à consciência moral da pessoa. É o caso do comerciante que vende pelo preço justo apenas para manter a sua clientela ou a criança que obedece apenas por medo da autoridade. A moralidade exige muito mais do essa dependência a uma autoridade externa à nossa consciência. Kant afirma que o homem que se limita a cumprir a lei e a agir para evitar a reprovação ou a punição ainda não atingiu um patamar de moralidade autónoma, a qual exige que a pessoa seja capaz de contrariar as suas inclinações naturais e de se orientar apenas pelo respeito pelo dever. O respeito pelo dever e a opção racional e deliberada pela boa vontade constituem, no pensamento kantiano, o móbil da verdadeira moralidade. O rigorismo moral e o formalismo de Kant levam-no a conceber os imperativos categóricos que se apresentam como mandamentos morais aos quais se deve respeito absoluto. O imperativo categórico prescreve uma acção como absolutamente necessária, sem referência a nenhuma condição e sem a subordinar a nenhum outro fim. Age unicamente segundo a máxima que faz com que possas querer ao mesmo tempo que ela seja uma lei universal. Com este imperativo categórico, Kant formula o princípio de todos os deveres. É a chamada fórmula da lei universal. Age como se a máxima da tua acção devesse pela tua vontade ser erigida em lei universal da natureza. Com esta segunda formulação do imperativo categórico, Kant defende que as máximas das nossas acções devem poder constituir para as actividades uma ordem moral, uma natureza ética universal. Age de tal maneira que trates a humanidade tão bem na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro sempre ao mesmo tempo como um fim e nunca simplesmente como um meio. É a fórmula do fim em si mesmo. Com esta formulação, Kant afirma o valor absoluto da pessoa, que não se mede com o uso que dela podemos fazer e que deriva da própria razão (Vancourt, 1995). Age de tal modo que a tua vontade possa considerar-se a si mesma como constituindo uma lei universal por meio da sua máxima. É a fórmula da autonomia. Age como se por meio das tuas máximas fosses sempre um membro legislador num reino universal de fins. É fórmula do reino dos fins. Kant quer dizer-nos que o homem é o legislador universal e que a lei deriva da própria vontade. A moralidade não tem a sua fonte em nada que exceda o homem. A fonte da moralidade é a razão e, por isso, a moral ou é autónoma ou não é moral. Quando procuramos a origem da moral em Deus ou no direito positivo, afastamo-nos da moral para cairmos na heteronomia.Qual é a relação que existe entre a moralidade e a felicidade? Estaremos presente uma moral eudemonista? Será que a vida moral depende da demanda da felicidade? Em que consiste a felicidade? Kant afirma que a felicidade é um máximo de bem estar no nosso estado presente e em toda a nossa condição futura. Contudo, Kant não aceita que a felicidade seja sinónimo de satisfação de todos os nossos desejos e inclinações e afirma que o conceito tem evoluído ao longo da História. Na verdade, é difícil obter um conceito de felicidade, embora seja fácil de verificar que é condição do homem procurá-la sempre. Talvez a definição que melhor apreende o conteúdo múltiplo da palavra felicidade seja um "continuado contentamento". A moral kantiana não é eudemonista porque o filósofo distingue a moralidade da felicidade. A vida moral torna-nos dignos de ser felizes mas não constitui um passaporte para a felicidade. Todo o homem tem o desejo da felicidade, mas esse desejo não se deve sobrepor ao cumprimento do dever. Se subordinássemos o dever à felicidade, estaríamos a transformar a atitude moral num cálculo interesseiro. Com efeito, nem sempre o bem estar se relaciona com o bem fazer. Quantas vezes, o respeito pelo imperativo categórico nos obriga a dar primazia ao bem fazer? De certa forma, uma pessoa moral é aquela que faz uso continuado da boa vontade para dar a primazia ao bem-fazer face ao bem estar. Felicidade e bondade são coisas distintas. A boa vontade conduz sempre à virtude, mas o bem estar pode conduzir ao vício. Kant distingue a boa vontade da felicidade, mas não as opõe. A boa vontade torna-nos dignos da felicidade e, em última análise, a felicidade e a virtude devem andar associadas. Quando isso acontece, estamos perante o supremo bem. Kant afasta-se dos estóicos, porque entende que não basta ser virtuoso para alcançar a felicidade. Afasta-se igualmente dos epicuristas, porque entende que não basta procurar a felicidade para se ser virtuoso. Está, contudo, mais perto dos estóicos, porque entende que a prática da virtude gera um contentamento de si, que se assemelha à felicidade e que é muito superior àquilo que sentimos quando nos limitamos a ser escravos das nossas inclinações e das nossas paixões. Kant afasta-se dos epicuristas, porque afirma que as nossas inclinações podem dar-nos um prazer momentâneo, mas deixam, muitas vezes, um vazio ainda maior do que aquele que se julgou preencher. Por outro lado, a História dá-nos conta de pessoas justas que tiveram uma vida infeliz. Estamos, portanto, em condições de afirmar que a moral de Kant não é eudemonista. Na sua essência, a lei moral tende a afastar o homem dos seus instintos e das suas inclinações mais rasteiras. O soberano bem será sempre a união da virtude e da felicidade, mas é sempre a virtude que constitui o elemento principal. Para se ser digno da felicidade é necessário ser-se virtuoso e a virtude baseia-se na autonomia da razão. Terá de ser, portanto, desinteressada e não pode depender de nenhuma autoridade externa, tão pouco pode ser condicionada pelo medo ou pelo interesse.A noção de boa vontade apresenta-se como central na filosofia moral kantiana, porque é a única coisa que pode ser considerada boa, sem quaisquer restrições. É a boa vontade que distingue um acto recto de um acto mau. A inteligência e as virtudes da coragem, do domínio de si e da prudência não são, em si, qualidades morais, porque podem ser usadas para o bem e para o mal. Kant, na obra Fundamentos da Metafísica dos Costumes, dirá que essas qualidades "são, sem dúvida sob muitos aspectos coisas boas e desejáveis, mas esses dons da natureza podem tornar-se extremamente maus e funestos se a vontade que deve fazer uso deles e cujas disposições próprias se chamam por isso carácter, não for boa. Acontece o mesmo com os dons da fortuna. O poder, a riqueza, a consideração, mesmo a saúde assim como o bem estar completo e o contentamento desse estado, aquilo a que se chama a felicidade, geram uma confiança em si que muitas vezes também se converte em presunção, desde que não haja uma boa vontade para rectificar e orientar para fins universais a influência que essas vantagens têm sobre a alma e simultaneamente todo o princípio da acção". O que Kant quer dizer é que há qualidades que são favoráveis ao exercício da boa vontade e que, apesar de facilitarem o seu exercício, não têm valor moral intrínseco. Entre essas qualidades, que Aristóteles inclui nas virtudes morais, Kant destaca o domínio de si, a coragem, a temperança e a prudência. Sendo qualidades do intelecto, não fazem parte do domínio moral porque a sua adequação ao Bem depende da boa vontade. Repare-se que um criminoso destemido é ainda mais perigoso do que um criminoso cobarde. Um ladrão com um grande domínio de si pode fazer mais mal do que um ladrão inseguro. A boa vontade tem, assim, a função de rectificar e orientar moralmente as nossas qualidades e disposições temperamentais e intelectuais.