A ciência não explica tudo. Ela tem limites, mas é o conhecimento mais adequado desenvolvido pela razão humana para tentar resolver os seus problemas. Só é científico o conhecimento que garante a sua validade. As universidades formam os cientistas. Eles são profissionais que aplicam métodos determinados, para tentar desenvolver conhecimentos destinados a melhorar a vida do homem. A ciência é muito importante, pois, sem pesquisa, não teríamos remédios, equipamentos médicos, luz elétrica, computadores, carros, satélites e muitas outros objetos de que precisamos para viver. Os limites da ciência são os conhecimentos racionais e experimentais (empíricos), pois, fora deles, a ciência não pode afirmar nada.
Mitos e deuses
Quando surgiu a ciência? Esta parece ser uma pergunta simples. Contudo, tem freqüentemente dado origem a longas discussões. Discussões que acabam quase sempre por se deslocar para uma outra pergunta mais básica: o que é a ciência? Mais básica, pois a resposta para aquela depende da solução encontrada para esta. Ora, o termo "ciência" nem sempre foi entendido da mesma maneira e ainda hoje as opiniões acerca do que deve ou não ser considerado como científico continuam divididas. Uma definição rigorosa e consensual de ciência é, pois, algo difícil de estabelecer. Mas isso não nos deve impedir de avançar. Assim, a melhor maneira de começar talvez seja a de correr o risco de propor uma definição de ciência que, apesar de imprecisa, nos possa servir como ponto de partida, mesmo que venha depois a ser corrigida: a ciência da natureza é o estudo sistemático e racional, baseado em métodos adequados de prova, da natureza e do seu funcionamento. Muitas das perguntas mais elementares que os seres humanos colocam a si próprios desde que são seres humanos são perguntas que podem dar origem a estudos científicos. Eis alguns exemplos dessas perguntas: Porque é que chove? O que é o trovão? De onde vem o relâmpago? Por que razão crescem as ervas? Por que razão existem os montes? Por que razão tenho fome? Por que razão morrem os meus semelhantes? Porque é que cai a noite e a seguir vem o dia de novo? O que são as estrelas? Por que razão voam os pássaros?... Mas estas perguntas podem dar origem também a outro tipo de respostas que não as científicas; podem dar origem a respostas de caráter religioso e mítico. Essas respostas têm a característica de não se basearem nos métodos mais adequados e de não serem o produto de estudos sistemáticos. Uma resposta mítica ou religiosa apela à vontade de um Deus ou de deuses e conta uma história da origem do universo. Essa resposta não se baseia em estudos sistemáticos da natureza, mas antes na observação diária não sistemática; e não são estudos racionais dado que não encorajam a crítica, mas antes a aceitação religiosa. Isto não quer dizer que as respostas míticas e religiosas não tivessem qualquer valor. Por exemplo, é óbvio que numa altura em que a ciência, com os seus métodos racionais de prova, ainda não estava desenvolvida, as explicações míticas e religiosas eram pelo menos uma maneira de responder à curiosidade natural dos seres humanos. Além disso, as explicações míticas e religiosas de um dado povo dão a esse povo uma importância central na ordem das coisas. E têm ainda outra característica importante: essas explicações constituem muitas vezes códigos de conduta moral, determinando de uma forma integrada com a origem mítica do universo, o que se deve e o que não se deve fazer. As explicações míticas e religiosas foram antepassados da ciência moderna, não por darem importância central aos seres humanos na ordem das coisas nem por determinarem códigos de conduta baseados na ordem cósmica, mas por ao mesmo tempo oferecerem explicações de alguns fenômenos naturais — apesar de essas explicações não se basearem em métodos adequados de prova nem na observação sistemática da natureza.
Os primeiros filósofos-cientistas
A ciência da natureza é diferente do mito e da religião. A ciência baseia-se em observações sistemáticas, é um estudo racional e usa métodos adequados de prova. Como é natural, os primeiros passos em direção à ciência não revelam ainda todas as características da ciência — revelam apenas algumas delas. O primeiro, e tímido, passo na direcção da ciência só foi dado no início do séc. VI a. C. na cidade grega de Mileto, por aquele que é apontado como o primeiro filósofo, Tales de Mileto. Tales de Mileto acreditava em deuses. Só que a resposta que ele dá à pergunta acerca da origem ou princípio de tudo o que vemos no mundo já não é mítica; já não se baseia em entidades sobrenaturais.. Dizia Tales que o princípio de todas as coisas era algo que por todos podia ser diretamente observado na natureza: a água. Tendo observado que a água tudo fazia crescer e viver, enquanto que a sua falta levava os seres a secar e morrer; tendo, talvez, reparado que na natureza há mais água do que terra e que grande parte do próprio corpo humano era formado por água; verificando que esse elemento se podia encontrar em diferentes estados, o líquido, o sólido e o gasoso, foi assim levado a concluir que tudo surgiu a partir da água. A explicação de Tales ainda não é científica; mas também já não é inteiramente mítica. Têm características da ciência e características do mito. Não é baseada na observação sistemática do mundo, mas também não se baseia em entidades míticas. Não recorre a métodos adequados de prova, mas também não recorre à autoridade religiosa e mítica. Este último aspecto é muito importante. Consta que Tales desafiava aqueles que conheciam as suas idéias a demonstrar que não tinha razão. Esta é uma característica da ciência — e da filosofia — que se opõe ao mito e à religião. A vontade de discutir racionalmente idéias, ao invés de nos limitarmos a aceitá-las, é um elemento sem o qual a ciência não se poderia ter desenvolvido. Uma das vantagens da discussão aberta de idéias é que os defeitos das nossas idéias são criticamente examinados e trazidos à luz do dia por outras pessoas. Foi talvez por isso que outros pensadores da mesma região surgiram apresentando diferentes teorias e, deste modo, se iniciou uma tradição que se foi gradualmente afastando das concepções míticas anteriores. Assim apareceram na Grécia, entre outros, Anaximandro (séc. VI a. C.), Heráclito (séc. VI/V a. C.), Pitágoras (séc. VI a. C.), Parmênides (séc. VI/V a. C.) e Demócrito (séc. V/IV a. C.). Este último viria mesmo a defender que tudo quanto existia era composto de pequeníssimas partículas indivisíveis (atomoi), unidas entre si de diferentes formas, e que na realidade nada mais havia do que átomos e o vazio onde eles se deslocavam. Foi o primeiro grande filósofo naturalista, que achava que não havia deuses e que a natureza tinha as suas próprias leis. As ciências da natureza estavam num estado primitivo; pouco mais eram do que especulações baseadas na observação avulsa. Mas as ciências matemáticas começaram também desde cedo a desenvolver-se, e apresentaram desde o início muitos mais resultados do que as ciências da natureza. Pitágoras, por exemplo, descobriu vários resultados matemáticos importantes, e o nome dele ainda está associado ao teorema de Pitágoras da geometria (apesar de não se saber se terá sido realmente ele a descobrir este teorema, se um discípulo da sua escola). A escola pitagórica era profundamente mística; atribuía aos números e às suas relações um significado mítico e religioso. Mas os seus estudos matemáticos eram de valor, o que mostra mais uma vez como a ciência e a religião estavam misturadas nos primeiros tempos. Afinal, a sede de conhecimento que leva os seres humanos a fazer ciências, religiões, artes e filosofia é a mesma. O maior desenvolvimento das ciências matemáticas teve repercussões importantíssimas para o desenvolvimento da ciência, para a filosofia da ciência e para a filosofia em geral. Os resultados matemáticos tinham uma característica muito diferente das especulações sobre a origem do universo e de todas as coisas. Ao passo que havia várias idéias diferentes quanto à origem das coisas, os resultados matemáticos eram consensuais. Eram consensuais porque os métodos de prova usados eram poderosos; dada a demonstração matemática de um resultado, era praticamente impossível recusá-lo. A matemática tornou-se assim um modelo da certeza. Mas este modelo não é apropriado para o estudo da natureza, pois a natureza depende crucialmente da observação. Além disso, não se pode aplicar a matemática à natureza se não tivermos à nossa disposição instrumentos precisos de quantificação, como o termômetro ou o cronômetro. Assim, o sentimento de alguns filósofos era (e por vezes ainda é) o de que só o domínio da matemática era verdadeiramente «científico» e que só a matemática podia oferecer realmente a certeza. Só Galileu e Newton, já no século XVII, viriam a mostrar que a matemática se pode aplicar à natureza e que as ciências da natureza têm de se basear noutro tipo de observação diferente da observação que até aí se fazia.
O nascimento da ciência moderna: Galileu
O que acaba de se referir contribuiu para o aparecimento de uma nova ciência, mas o seu fundador, como começou por se assinalar, foi Galileu. Há três tipos de razões que fizeram de Galileu o pai de uma nova forma de encarar a natureza: em primeiro lugar, deu autonomia à ciência, fazendo-a sair da sombra da teologia e da autoridade livresca da tradição aristotélica; em segundo lugar, aplicou pela primeira vez o novo método, o método experimental, defendendo-o como o meio adequado para chegar ao conhecimento; finalmente, deu à ciência uma nova linguagem, que é a linguagem do rigor, a linguagem matemática. Ao dar autonomia à ciência, Galileu a fez verdadeiramente nascer. Embora na altura se lhe chamasse «filosofia da natureza», era a ciência moderna que estava a dar os seus primeiros passos. Antes disso, a ciência ainda não era ciência, mas sim teologia ou até metafísica. A verdade acerca das coisas naturais ainda se ia buscar às Escrituras e aos livros de Aristóteles. E não foi fácil a Galileu quebrar essa dependência, tendo que se defender, após a publicação do seu livro Diálogo dos Grandes Sistemas, das acusações de pôr em causa o que a Bíblia dizia. Esta carta de Galileu é bem disso exemplo: Posto isto, parece-me que nas discussões respeitantes aos problemas da natureza, não se deve começar por invocar a autoridade de passagens das Escrituras; é preciso, em primeiro lugar, recorrer à experiência dos sentidos e a demonstrações necessárias. Com efeito, a Sagrada Escritura e a natureza procedem igualmente do Verbo divino, sendo aquela ditada pelo Espírito Santo, e esta, uma executora perfeitamente fiel das ordens de Deus. Ora, para se adaptarem às possibilidades de compreensão do maior número possível de homens, as Escrituras dizem coisas que diferem da verdade absoluta, quer na sua expressão, quer no sentido literal dos termos; a natureza, pelo contrário, conforma-se inexorável e imutavelmente às leis que lhe foram impostas, sem nunca ultrapassar os seus limites e sem se preocupar em saber se as suas razões ocultas e modos de operar estão dentro das capacidades de compreensão humana. Daqui resulta que os efeitos naturais e a experiência sensível que se oferece aos nossos olhos, bem como as demonstrações necessárias que daí retiramos não devem, de maneira nenhuma, ser postas em dúvida, nem condenadas em nome de passagens da Escritura, mesmo quando o sentido literal parece contradizê-las. (Galileu, Carta a Cristina de Lorena) Foi também Galileu quem, na linha de Bacon, utilizou pela primeira vez o método experimental, o que lhe permitiu chegar a resultados completamente diferentes daqueles que se podiam encontrar na ciência tradicional. Um exemplo do pioneirismo de Galileu na utilização do método experimental é o da utilização do famoso plano inclinado, por si construído para observar em condições ideais (ultrapassando os obstáculos da observação direta) o movimento da queda dos corpos. Pôde, desse modo, repetir as experiências tantas vezes quantas as necessárias e registrar meticulosamente os resultados alcançados. Tais resultados devem-se, ainda, a uma novidade que Galileu acrescentou em relação ao método indutivo de Bacon: o raciocínio matemático. A ciência não poderia mais construir-se e desenvolver-se tendo por base a interpretação dos textos sagrados; mas também não o poderia fazer por simples dedução lógica a partir de dogmas teológicos: Ao cientista só se deve exigir que prove o que afirma. (...) Nas disputas dos problemas das ciências naturais, não se deve começar pela autoridade dos textos bíblicos, mas sim pelas experiências sensatas e pelas demonstrações indispensáveis. (Galileu, Audiência com o Papa Urbano VIII) Tratava-se de uma ciência cujas verdades deveriam ter um conteúdo empírico e que podiam ser não só expressas, mas também demonstradas numa linguagem já não qualitativa mas quantitativa: a linguagem matemática. Foi o que aconteceu quando Galileu, graças ao referido plano inclinado, pôs em prática o novo método e começou a investigar o movimento natural dos corpos. O resultado foi formular uma lei universal expressa matematicamente, o que tornava também possível fazer previsões. Diz ele: Não há, talvez, na natureza nada mais velho que o movimento, e não faltam volumosos livros sobre tal assunto, escritos por filósofos. Apesar disso, muitas das suas propriedades (...) não foram observadas nem demonstradas até ao momento. (...) Com efeito, que eu saiba, ninguém demonstrou que o corpo que cai, partindo de uma situação de repouso, percorre em tempos iguais, espaços que mantêm entre si uma proporção idêntica à que se verifica entre os números ímpares sucessivos começando pela unidade. (Galileu, As Duas Novas Ciências) A velocidade da queda dos corpos (queda livre) é de tal modo apresentada que pode ser rigorosamente descrita numa fórmula matemática. Não seria possível fazer ciência sem se dominar a linguagem matemática. Metaforicamente, é através da matemática que a natureza se exprime: A filosofia está escrita neste grande livro que está sempre aberto diante de nós: refiro-me ao universo; mas não pode ser lido antes de termos aprendido a sua linguagem e de nos termos familiarizado com os caracteres em que está escrito. Está escrito em linguagem matemática e as letras são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem as quais é humanamente impossível entender uma só palavra. (Galileu, Il Saggiatore) A descrição matemática da realidade, característica da ciência moderna, trouxe consigo uma idéia importante: conhecer é medir ou quantificar. Nesse caso, os aspectos qualitativos não poderiam ser conhecidos. Também as causas primeiras e os fins últimos aristotélicos, pelos quais todas as coisas se explicavam, deixaram de pertencer ao domínio da ciência. Com Galileu a ciência aprende a avançar em pequenos passos, explicando coisas simples e avançando do mais simples para o mais complexo. Em lugar de procurar explicações muito abrangentes, procurava explicar fenômenos simples. Em vez de tentar explicar de forma muito geral o movimento dos corpos, procurava estudar-lhe as suas propriedades mais modestas. E foi assim, com pequenos passos, que a ciência alcançou o tipo de explicações extremamente abrangentes que temos hoje. Inicialmente, parecia que a ciência estava mais interessada em explicar o «como» das coisas do que o seu «porquê»; por exemplo, parecia que os resultados de Galileu quanto ao movimento dos corpos se limitava a explicar o modo como os corpos caem e não a razão pela qual caem; mas, com a continuação da investigação, este tipo de explicações parcelares acabaram por se revelar fundamentais para se alcançar explicações abrangentes e gerais do porquê das coisas — só que agora estas explicações gerais estão solidamente ancoradas na observação e na medição paciente, assim como na descrição pormenorizada de fenômenos mais simples.
Ciências Humanas e Filosofia A relação entre as Ciências Humanas e a Filosofia é de tal monta que a síntese mais simples e direta ainda reside no já clássico conceito humanista, assim formulado por Lucien Goldman, precisamente num livro intitulado Ciências Humanas e Filosofia, da Editora Difel: “Se a Filosofia traz respostas quanto ao ser do Homem no mundo as Ciências Humanas têm de ser obrigatoriamente filosóficas caso pretendam ser científicas!” Nas ciências naturais, hoje em dia há uma concordância generalizada com relação aos termos propostos para o debate (outras eram as condições, por exemplo, na Idade Média européia, quando dizer, por exemplo, “A Terra se Move” ou “A Terra é Redonda!” poderia levar o cientista à incineração!) Não existe a menor possibilidade de se ministrar aulas “neutras” em Ciências Humanas. O fundamento científico das Humanas reside precisamente em opiniões profundamente arraigadas (tanto que, via de regra, sequer como tal são reconhecidas!). Assemelhar o revolucionário ao criminoso contribui para o pensamento conservador. Por outro lado, anunciar o “pós-modernismo” como “a nova cara do velho demônio”, contribui para o humanismo, as teorias libertárias: nada pior aconteceu com a filosofia nas últimas décadas que esta invenção verdadeiramente diabólica: ressuscitar velhas teorias conservadoras recapeadas com nomes “simpáticos” como “neo” ou “pós”-seja-lá-o-que-for. Dizem que os cientistas da área de Naturais quando se encontram, trocam “informações” – “descobri a partícula x”, “consegui dissecar tal ou qual parte do átomo”, “há uma nova equação que permite resolver tal problema”, etc. Quando cientistas da área de Humanas se encontram, em geral, trocam “insultos” – “Positivista!”, “Marxista!”, “Liberal!”, “Comunista!”, etc. Não fujo à regra: daqui da esquerda e do humanismo, vejo o irracionalismo de tudo o que recebe os prefixos “neo” e “pós” – neoliberalismo, pós-modernismo, pós-capitalismo e o denuncio onde encontro! A exatidão das Ciências Naturais vem sendo questionada mais e mais. Hoje se prefere chamá-las simplesmente de “Naturais”. Como imaginar a matemática como uma ciência “exata” se é fundamentada em postulados arbitrários e chega a hipercubos e geometria multiplana não existentes em nossa dimensão? Qual a exatidão disso? Na física, pior ainda: ao se resolver um problema qualquer aparece no postulado coisas como: “desprezar a resistência do ar” ou “imaginar atrito igual zero”. Mas o ar não oferece resistência? O atrito não existe de fato? Qual a “exatidão” de uma ciência que despreza as coisas reais? A Filosofia está na raiz das Ciências Humanas. Entre os sociólogos, particularmente os positivistas e weberianos (assumidos ou não...) recomenda-se “afastar sistematicamente as pré-noções” ou “evitar juízos de valor”, ou seja, as opiniões. Acontece que são precisamente os juízos de valor que aparecem no início da pesquisa em Ciências Sociais! Em outras palavras, é a partir de uma opinião solidamente formada que se parte em busca de respostas. Aqueles que têm formação libertária ou socialista partem suas pesquisas da premissa que o ser humano é mais importante que a propriedade. Aqueles que têm formação burguesa partem da premissa de que não é conveniente – paroxisticamente partem do pressuposto ou da pré-noção de que “não é possível” – efetivar transformações na direção da valorização do humano. Lucáks chama a isso “pessimismo defensivo”. Com vistas a arrefecer os ânimos daqueles a quem deseja controlar partem do pressuposto (hoje deploravelmente obrigatório em praticamente todos os estabelecimentos de ensino superior) de que “não tem jeito”, “sempre foi assim e assim sempre será” e outros pseudo-alegatos hoje mais aceitos que as Tábuas da Lei o eram pelos seguidores de Moisés. Ora, nas ciências humanas, a desconsideração com respeito à filosofia ou à psicologia humanas redunda simplesmente falseadora da realidade, conducente a teorias estapafúrdias, ou seja, à negação da ciência.
CIÊNCIAS FORMAIS: ESTUDOS DE IDÉIAS (LÓGICA, MATEMÁTICA)
A Computação é uma ciência e existem três grupos distintos de ciências. A saber: 1. Ciências formais, como a Matemática e a Lógica, que são constituídas por sistemas formais. Um sistema formal é uma realidade de ordem ideal. As ciências formais operam com objetos, claramente representados, criados pela mente. Por exemplo, os números na matemática. 2. Ciências empírico-formais, como a Física, Química e outras. São as ciências que remetem à experiência empírica, visam o mundo físico, ao mesmo tempo que se utilizam de um aparelho teórico fornecido pelas ciências formais. 3. Ciências hermenêuticas, as chamadas ciências humanas, como a Sociologia, a História e o Direito. Estas ciências utilizam-se do formalismo e da experiência que estão presentes nos outros dois grupos, mas acrescentam algo mais: significação e valores humanos aos elementos de natureza quantitativa. A significação se revela através de um processo de interpretação. Por exemplo, uma taxa de crescimento populacional negativa (que é um dado empírico-formal), pode significar para o pesquisador, analisando-se as circunstâncias de vida social, a desconfiança daquela população em relação ao futuro. Noutras palavras, isso pode significar que ninguém quer ter filhos pois não vê perspectivas de uma vida melhor para eles. A Ciência da Computação, pela sua natureza, é uma ciência empírico-formal e está mais próxima do grupo das ciências formais do que das ciências hermenêuticas. Mas o que tudo isto tem a ver com tecnocracia? Muito, doutores! Muito! Observa-se, com espanto, o comportamento de alguns profissionais e estudiosos da área de computação, ao enaltecerem um software ou outro, baseado em raciocínios simplistas como: este sistema operacional é melhor do que aquele, pois o algoritmo de escalonamento de processos na CPU é tecnicamente melhor. Ou então, este software é melhor, porque foi desenvolvido por PhD`s, e aquele outro por técnicos que visavam mais o lucro no mercado. Neste tipo de raciocínio prevalece o conhecimento científico formal e, na melhor das hipóteses, o empírico-formal. Enfim, a tecnocracia está instaurada. Ignoram-se todos os outros elementos significativos como, por exemplo, o fato de que o usuário brasileiro prefere utilizar um programa (não um software) e ler a Ajuda (não o Help) em português bem claro.
Mitos e deuses
Quando surgiu a ciência? Esta parece ser uma pergunta simples. Contudo, tem freqüentemente dado origem a longas discussões. Discussões que acabam quase sempre por se deslocar para uma outra pergunta mais básica: o que é a ciência? Mais básica, pois a resposta para aquela depende da solução encontrada para esta. Ora, o termo "ciência" nem sempre foi entendido da mesma maneira e ainda hoje as opiniões acerca do que deve ou não ser considerado como científico continuam divididas. Uma definição rigorosa e consensual de ciência é, pois, algo difícil de estabelecer. Mas isso não nos deve impedir de avançar. Assim, a melhor maneira de começar talvez seja a de correr o risco de propor uma definição de ciência que, apesar de imprecisa, nos possa servir como ponto de partida, mesmo que venha depois a ser corrigida: a ciência da natureza é o estudo sistemático e racional, baseado em métodos adequados de prova, da natureza e do seu funcionamento. Muitas das perguntas mais elementares que os seres humanos colocam a si próprios desde que são seres humanos são perguntas que podem dar origem a estudos científicos. Eis alguns exemplos dessas perguntas: Porque é que chove? O que é o trovão? De onde vem o relâmpago? Por que razão crescem as ervas? Por que razão existem os montes? Por que razão tenho fome? Por que razão morrem os meus semelhantes? Porque é que cai a noite e a seguir vem o dia de novo? O que são as estrelas? Por que razão voam os pássaros?... Mas estas perguntas podem dar origem também a outro tipo de respostas que não as científicas; podem dar origem a respostas de caráter religioso e mítico. Essas respostas têm a característica de não se basearem nos métodos mais adequados e de não serem o produto de estudos sistemáticos. Uma resposta mítica ou religiosa apela à vontade de um Deus ou de deuses e conta uma história da origem do universo. Essa resposta não se baseia em estudos sistemáticos da natureza, mas antes na observação diária não sistemática; e não são estudos racionais dado que não encorajam a crítica, mas antes a aceitação religiosa. Isto não quer dizer que as respostas míticas e religiosas não tivessem qualquer valor. Por exemplo, é óbvio que numa altura em que a ciência, com os seus métodos racionais de prova, ainda não estava desenvolvida, as explicações míticas e religiosas eram pelo menos uma maneira de responder à curiosidade natural dos seres humanos. Além disso, as explicações míticas e religiosas de um dado povo dão a esse povo uma importância central na ordem das coisas. E têm ainda outra característica importante: essas explicações constituem muitas vezes códigos de conduta moral, determinando de uma forma integrada com a origem mítica do universo, o que se deve e o que não se deve fazer. As explicações míticas e religiosas foram antepassados da ciência moderna, não por darem importância central aos seres humanos na ordem das coisas nem por determinarem códigos de conduta baseados na ordem cósmica, mas por ao mesmo tempo oferecerem explicações de alguns fenômenos naturais — apesar de essas explicações não se basearem em métodos adequados de prova nem na observação sistemática da natureza.
Os primeiros filósofos-cientistas
A ciência da natureza é diferente do mito e da religião. A ciência baseia-se em observações sistemáticas, é um estudo racional e usa métodos adequados de prova. Como é natural, os primeiros passos em direção à ciência não revelam ainda todas as características da ciência — revelam apenas algumas delas. O primeiro, e tímido, passo na direcção da ciência só foi dado no início do séc. VI a. C. na cidade grega de Mileto, por aquele que é apontado como o primeiro filósofo, Tales de Mileto. Tales de Mileto acreditava em deuses. Só que a resposta que ele dá à pergunta acerca da origem ou princípio de tudo o que vemos no mundo já não é mítica; já não se baseia em entidades sobrenaturais.. Dizia Tales que o princípio de todas as coisas era algo que por todos podia ser diretamente observado na natureza: a água. Tendo observado que a água tudo fazia crescer e viver, enquanto que a sua falta levava os seres a secar e morrer; tendo, talvez, reparado que na natureza há mais água do que terra e que grande parte do próprio corpo humano era formado por água; verificando que esse elemento se podia encontrar em diferentes estados, o líquido, o sólido e o gasoso, foi assim levado a concluir que tudo surgiu a partir da água. A explicação de Tales ainda não é científica; mas também já não é inteiramente mítica. Têm características da ciência e características do mito. Não é baseada na observação sistemática do mundo, mas também não se baseia em entidades míticas. Não recorre a métodos adequados de prova, mas também não recorre à autoridade religiosa e mítica. Este último aspecto é muito importante. Consta que Tales desafiava aqueles que conheciam as suas idéias a demonstrar que não tinha razão. Esta é uma característica da ciência — e da filosofia — que se opõe ao mito e à religião. A vontade de discutir racionalmente idéias, ao invés de nos limitarmos a aceitá-las, é um elemento sem o qual a ciência não se poderia ter desenvolvido. Uma das vantagens da discussão aberta de idéias é que os defeitos das nossas idéias são criticamente examinados e trazidos à luz do dia por outras pessoas. Foi talvez por isso que outros pensadores da mesma região surgiram apresentando diferentes teorias e, deste modo, se iniciou uma tradição que se foi gradualmente afastando das concepções míticas anteriores. Assim apareceram na Grécia, entre outros, Anaximandro (séc. VI a. C.), Heráclito (séc. VI/V a. C.), Pitágoras (séc. VI a. C.), Parmênides (séc. VI/V a. C.) e Demócrito (séc. V/IV a. C.). Este último viria mesmo a defender que tudo quanto existia era composto de pequeníssimas partículas indivisíveis (atomoi), unidas entre si de diferentes formas, e que na realidade nada mais havia do que átomos e o vazio onde eles se deslocavam. Foi o primeiro grande filósofo naturalista, que achava que não havia deuses e que a natureza tinha as suas próprias leis. As ciências da natureza estavam num estado primitivo; pouco mais eram do que especulações baseadas na observação avulsa. Mas as ciências matemáticas começaram também desde cedo a desenvolver-se, e apresentaram desde o início muitos mais resultados do que as ciências da natureza. Pitágoras, por exemplo, descobriu vários resultados matemáticos importantes, e o nome dele ainda está associado ao teorema de Pitágoras da geometria (apesar de não se saber se terá sido realmente ele a descobrir este teorema, se um discípulo da sua escola). A escola pitagórica era profundamente mística; atribuía aos números e às suas relações um significado mítico e religioso. Mas os seus estudos matemáticos eram de valor, o que mostra mais uma vez como a ciência e a religião estavam misturadas nos primeiros tempos. Afinal, a sede de conhecimento que leva os seres humanos a fazer ciências, religiões, artes e filosofia é a mesma. O maior desenvolvimento das ciências matemáticas teve repercussões importantíssimas para o desenvolvimento da ciência, para a filosofia da ciência e para a filosofia em geral. Os resultados matemáticos tinham uma característica muito diferente das especulações sobre a origem do universo e de todas as coisas. Ao passo que havia várias idéias diferentes quanto à origem das coisas, os resultados matemáticos eram consensuais. Eram consensuais porque os métodos de prova usados eram poderosos; dada a demonstração matemática de um resultado, era praticamente impossível recusá-lo. A matemática tornou-se assim um modelo da certeza. Mas este modelo não é apropriado para o estudo da natureza, pois a natureza depende crucialmente da observação. Além disso, não se pode aplicar a matemática à natureza se não tivermos à nossa disposição instrumentos precisos de quantificação, como o termômetro ou o cronômetro. Assim, o sentimento de alguns filósofos era (e por vezes ainda é) o de que só o domínio da matemática era verdadeiramente «científico» e que só a matemática podia oferecer realmente a certeza. Só Galileu e Newton, já no século XVII, viriam a mostrar que a matemática se pode aplicar à natureza e que as ciências da natureza têm de se basear noutro tipo de observação diferente da observação que até aí se fazia.
O nascimento da ciência moderna: Galileu
O que acaba de se referir contribuiu para o aparecimento de uma nova ciência, mas o seu fundador, como começou por se assinalar, foi Galileu. Há três tipos de razões que fizeram de Galileu o pai de uma nova forma de encarar a natureza: em primeiro lugar, deu autonomia à ciência, fazendo-a sair da sombra da teologia e da autoridade livresca da tradição aristotélica; em segundo lugar, aplicou pela primeira vez o novo método, o método experimental, defendendo-o como o meio adequado para chegar ao conhecimento; finalmente, deu à ciência uma nova linguagem, que é a linguagem do rigor, a linguagem matemática. Ao dar autonomia à ciência, Galileu a fez verdadeiramente nascer. Embora na altura se lhe chamasse «filosofia da natureza», era a ciência moderna que estava a dar os seus primeiros passos. Antes disso, a ciência ainda não era ciência, mas sim teologia ou até metafísica. A verdade acerca das coisas naturais ainda se ia buscar às Escrituras e aos livros de Aristóteles. E não foi fácil a Galileu quebrar essa dependência, tendo que se defender, após a publicação do seu livro Diálogo dos Grandes Sistemas, das acusações de pôr em causa o que a Bíblia dizia. Esta carta de Galileu é bem disso exemplo: Posto isto, parece-me que nas discussões respeitantes aos problemas da natureza, não se deve começar por invocar a autoridade de passagens das Escrituras; é preciso, em primeiro lugar, recorrer à experiência dos sentidos e a demonstrações necessárias. Com efeito, a Sagrada Escritura e a natureza procedem igualmente do Verbo divino, sendo aquela ditada pelo Espírito Santo, e esta, uma executora perfeitamente fiel das ordens de Deus. Ora, para se adaptarem às possibilidades de compreensão do maior número possível de homens, as Escrituras dizem coisas que diferem da verdade absoluta, quer na sua expressão, quer no sentido literal dos termos; a natureza, pelo contrário, conforma-se inexorável e imutavelmente às leis que lhe foram impostas, sem nunca ultrapassar os seus limites e sem se preocupar em saber se as suas razões ocultas e modos de operar estão dentro das capacidades de compreensão humana. Daqui resulta que os efeitos naturais e a experiência sensível que se oferece aos nossos olhos, bem como as demonstrações necessárias que daí retiramos não devem, de maneira nenhuma, ser postas em dúvida, nem condenadas em nome de passagens da Escritura, mesmo quando o sentido literal parece contradizê-las. (Galileu, Carta a Cristina de Lorena) Foi também Galileu quem, na linha de Bacon, utilizou pela primeira vez o método experimental, o que lhe permitiu chegar a resultados completamente diferentes daqueles que se podiam encontrar na ciência tradicional. Um exemplo do pioneirismo de Galileu na utilização do método experimental é o da utilização do famoso plano inclinado, por si construído para observar em condições ideais (ultrapassando os obstáculos da observação direta) o movimento da queda dos corpos. Pôde, desse modo, repetir as experiências tantas vezes quantas as necessárias e registrar meticulosamente os resultados alcançados. Tais resultados devem-se, ainda, a uma novidade que Galileu acrescentou em relação ao método indutivo de Bacon: o raciocínio matemático. A ciência não poderia mais construir-se e desenvolver-se tendo por base a interpretação dos textos sagrados; mas também não o poderia fazer por simples dedução lógica a partir de dogmas teológicos: Ao cientista só se deve exigir que prove o que afirma. (...) Nas disputas dos problemas das ciências naturais, não se deve começar pela autoridade dos textos bíblicos, mas sim pelas experiências sensatas e pelas demonstrações indispensáveis. (Galileu, Audiência com o Papa Urbano VIII) Tratava-se de uma ciência cujas verdades deveriam ter um conteúdo empírico e que podiam ser não só expressas, mas também demonstradas numa linguagem já não qualitativa mas quantitativa: a linguagem matemática. Foi o que aconteceu quando Galileu, graças ao referido plano inclinado, pôs em prática o novo método e começou a investigar o movimento natural dos corpos. O resultado foi formular uma lei universal expressa matematicamente, o que tornava também possível fazer previsões. Diz ele: Não há, talvez, na natureza nada mais velho que o movimento, e não faltam volumosos livros sobre tal assunto, escritos por filósofos. Apesar disso, muitas das suas propriedades (...) não foram observadas nem demonstradas até ao momento. (...) Com efeito, que eu saiba, ninguém demonstrou que o corpo que cai, partindo de uma situação de repouso, percorre em tempos iguais, espaços que mantêm entre si uma proporção idêntica à que se verifica entre os números ímpares sucessivos começando pela unidade. (Galileu, As Duas Novas Ciências) A velocidade da queda dos corpos (queda livre) é de tal modo apresentada que pode ser rigorosamente descrita numa fórmula matemática. Não seria possível fazer ciência sem se dominar a linguagem matemática. Metaforicamente, é através da matemática que a natureza se exprime: A filosofia está escrita neste grande livro que está sempre aberto diante de nós: refiro-me ao universo; mas não pode ser lido antes de termos aprendido a sua linguagem e de nos termos familiarizado com os caracteres em que está escrito. Está escrito em linguagem matemática e as letras são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem as quais é humanamente impossível entender uma só palavra. (Galileu, Il Saggiatore) A descrição matemática da realidade, característica da ciência moderna, trouxe consigo uma idéia importante: conhecer é medir ou quantificar. Nesse caso, os aspectos qualitativos não poderiam ser conhecidos. Também as causas primeiras e os fins últimos aristotélicos, pelos quais todas as coisas se explicavam, deixaram de pertencer ao domínio da ciência. Com Galileu a ciência aprende a avançar em pequenos passos, explicando coisas simples e avançando do mais simples para o mais complexo. Em lugar de procurar explicações muito abrangentes, procurava explicar fenômenos simples. Em vez de tentar explicar de forma muito geral o movimento dos corpos, procurava estudar-lhe as suas propriedades mais modestas. E foi assim, com pequenos passos, que a ciência alcançou o tipo de explicações extremamente abrangentes que temos hoje. Inicialmente, parecia que a ciência estava mais interessada em explicar o «como» das coisas do que o seu «porquê»; por exemplo, parecia que os resultados de Galileu quanto ao movimento dos corpos se limitava a explicar o modo como os corpos caem e não a razão pela qual caem; mas, com a continuação da investigação, este tipo de explicações parcelares acabaram por se revelar fundamentais para se alcançar explicações abrangentes e gerais do porquê das coisas — só que agora estas explicações gerais estão solidamente ancoradas na observação e na medição paciente, assim como na descrição pormenorizada de fenômenos mais simples.
Ciências Humanas e Filosofia A relação entre as Ciências Humanas e a Filosofia é de tal monta que a síntese mais simples e direta ainda reside no já clássico conceito humanista, assim formulado por Lucien Goldman, precisamente num livro intitulado Ciências Humanas e Filosofia, da Editora Difel: “Se a Filosofia traz respostas quanto ao ser do Homem no mundo as Ciências Humanas têm de ser obrigatoriamente filosóficas caso pretendam ser científicas!” Nas ciências naturais, hoje em dia há uma concordância generalizada com relação aos termos propostos para o debate (outras eram as condições, por exemplo, na Idade Média européia, quando dizer, por exemplo, “A Terra se Move” ou “A Terra é Redonda!” poderia levar o cientista à incineração!) Não existe a menor possibilidade de se ministrar aulas “neutras” em Ciências Humanas. O fundamento científico das Humanas reside precisamente em opiniões profundamente arraigadas (tanto que, via de regra, sequer como tal são reconhecidas!). Assemelhar o revolucionário ao criminoso contribui para o pensamento conservador. Por outro lado, anunciar o “pós-modernismo” como “a nova cara do velho demônio”, contribui para o humanismo, as teorias libertárias: nada pior aconteceu com a filosofia nas últimas décadas que esta invenção verdadeiramente diabólica: ressuscitar velhas teorias conservadoras recapeadas com nomes “simpáticos” como “neo” ou “pós”-seja-lá-o-que-for. Dizem que os cientistas da área de Naturais quando se encontram, trocam “informações” – “descobri a partícula x”, “consegui dissecar tal ou qual parte do átomo”, “há uma nova equação que permite resolver tal problema”, etc. Quando cientistas da área de Humanas se encontram, em geral, trocam “insultos” – “Positivista!”, “Marxista!”, “Liberal!”, “Comunista!”, etc. Não fujo à regra: daqui da esquerda e do humanismo, vejo o irracionalismo de tudo o que recebe os prefixos “neo” e “pós” – neoliberalismo, pós-modernismo, pós-capitalismo e o denuncio onde encontro! A exatidão das Ciências Naturais vem sendo questionada mais e mais. Hoje se prefere chamá-las simplesmente de “Naturais”. Como imaginar a matemática como uma ciência “exata” se é fundamentada em postulados arbitrários e chega a hipercubos e geometria multiplana não existentes em nossa dimensão? Qual a exatidão disso? Na física, pior ainda: ao se resolver um problema qualquer aparece no postulado coisas como: “desprezar a resistência do ar” ou “imaginar atrito igual zero”. Mas o ar não oferece resistência? O atrito não existe de fato? Qual a “exatidão” de uma ciência que despreza as coisas reais? A Filosofia está na raiz das Ciências Humanas. Entre os sociólogos, particularmente os positivistas e weberianos (assumidos ou não...) recomenda-se “afastar sistematicamente as pré-noções” ou “evitar juízos de valor”, ou seja, as opiniões. Acontece que são precisamente os juízos de valor que aparecem no início da pesquisa em Ciências Sociais! Em outras palavras, é a partir de uma opinião solidamente formada que se parte em busca de respostas. Aqueles que têm formação libertária ou socialista partem suas pesquisas da premissa que o ser humano é mais importante que a propriedade. Aqueles que têm formação burguesa partem da premissa de que não é conveniente – paroxisticamente partem do pressuposto ou da pré-noção de que “não é possível” – efetivar transformações na direção da valorização do humano. Lucáks chama a isso “pessimismo defensivo”. Com vistas a arrefecer os ânimos daqueles a quem deseja controlar partem do pressuposto (hoje deploravelmente obrigatório em praticamente todos os estabelecimentos de ensino superior) de que “não tem jeito”, “sempre foi assim e assim sempre será” e outros pseudo-alegatos hoje mais aceitos que as Tábuas da Lei o eram pelos seguidores de Moisés. Ora, nas ciências humanas, a desconsideração com respeito à filosofia ou à psicologia humanas redunda simplesmente falseadora da realidade, conducente a teorias estapafúrdias, ou seja, à negação da ciência.
CIÊNCIAS FORMAIS: ESTUDOS DE IDÉIAS (LÓGICA, MATEMÁTICA)
A Computação é uma ciência e existem três grupos distintos de ciências. A saber: 1. Ciências formais, como a Matemática e a Lógica, que são constituídas por sistemas formais. Um sistema formal é uma realidade de ordem ideal. As ciências formais operam com objetos, claramente representados, criados pela mente. Por exemplo, os números na matemática. 2. Ciências empírico-formais, como a Física, Química e outras. São as ciências que remetem à experiência empírica, visam o mundo físico, ao mesmo tempo que se utilizam de um aparelho teórico fornecido pelas ciências formais. 3. Ciências hermenêuticas, as chamadas ciências humanas, como a Sociologia, a História e o Direito. Estas ciências utilizam-se do formalismo e da experiência que estão presentes nos outros dois grupos, mas acrescentam algo mais: significação e valores humanos aos elementos de natureza quantitativa. A significação se revela através de um processo de interpretação. Por exemplo, uma taxa de crescimento populacional negativa (que é um dado empírico-formal), pode significar para o pesquisador, analisando-se as circunstâncias de vida social, a desconfiança daquela população em relação ao futuro. Noutras palavras, isso pode significar que ninguém quer ter filhos pois não vê perspectivas de uma vida melhor para eles. A Ciência da Computação, pela sua natureza, é uma ciência empírico-formal e está mais próxima do grupo das ciências formais do que das ciências hermenêuticas. Mas o que tudo isto tem a ver com tecnocracia? Muito, doutores! Muito! Observa-se, com espanto, o comportamento de alguns profissionais e estudiosos da área de computação, ao enaltecerem um software ou outro, baseado em raciocínios simplistas como: este sistema operacional é melhor do que aquele, pois o algoritmo de escalonamento de processos na CPU é tecnicamente melhor. Ou então, este software é melhor, porque foi desenvolvido por PhD`s, e aquele outro por técnicos que visavam mais o lucro no mercado. Neste tipo de raciocínio prevalece o conhecimento científico formal e, na melhor das hipóteses, o empírico-formal. Enfim, a tecnocracia está instaurada. Ignoram-se todos os outros elementos significativos como, por exemplo, o fato de que o usuário brasileiro prefere utilizar um programa (não um software) e ler a Ajuda (não o Help) em português bem claro.
