sexta-feira, 31 de outubro de 2008

FILOSOFIA E CIÊNCIA: LIGAÇÕES PERIGOSAS

A importância da filosofia como forma de saber sobre o mundo é expressa na obra de Galeno, ao defender que o melhor médico deve ser também filósofo. Isso quer dizer que para se realizar um diagnóstico correto de um paciente era necessário não apenas ter conhecimentos de anatomia (as atividades do corpo), mas também de lógica (as atividades da razão).

FILOSOFIA E CIÊNCIA: LIGAÇÕES PERIGOSAS
No século XX, a ciência é considerada o discurso mais eficaz sobre a realidade, e a filosofia, apenas uma ciência auxiliar, uma coadjuvante na busca do conhecimento. Todavia, nem sempre a filosofia teve esse papel subordinado à ciência. A filosofia foi durante muito tempo ela mesma o discurso mais completo e rico sobre o real. Já foi considerada como ciência, e não uma ciência qualquer, mas a rainha de todas as ciências. A imagem dos primeiros pensadores, tais como Tales, Pitágoras, Platão ou Aristóteles, coincidia com a dos cientistas, pois eles eram também físicos, botânicos, químicos, astrónomos, etc. Fazer filosofia era a forma mais refinada de estudar o mundo.

Galeno é considerado um dos pais da medicina e viveu de 129 a 204 d.C. Durante cinco anos (157-162 d.C.) cuidou da saúde dos gladiadores do imperador Marco Aurélio em Pérgamo. Através dessa atividade excepcional, comparável em status à dos atuais médicos das seleções nacionais de futebol, salvou diversas vidas e desenvolveu novas formas de tratamento de feridas causadas por armas.

A lógica (do grego Lógos = palavra, pensamento) é a disciplina da filosofia que estuda o modo correto de pensar. Aristóteles sistematizou no seu escrito Analíticos Primeiros (c. 350 a.C.) os tipos perfeitos de silogismos: "discursos em que, dadas algumas coisas, outras derivam necessariamente" (Analíticos Pr., 1,1, 24b). Os silogismos são raciocínios dedutivos, isto é, a partir de uma ou mais premissas deduz-se a conclusão (sem precisar recorrer à experiência ou à observação da natureza). O mais famoso exemplo de silogismo diz: "Todos os homens são mortais [premissa I]; Sócrates é homem [premissa II]; logo, Sócrates é mortal [conclusão]". Para investigar adequadamente o mundo era fundamental aprender o uso adequado do raciocínio, evitando assim as falácias, discursos aparentemente lógicos, mas que levam a conclusões paradoxais ou desagradáveis. As falácias podem ter um efeito cómico, como no seguinte exemplo: "Deus é amor. O Amor é cego. Stevie Wonder (cantor norte-americano) é cego. Logo, Stevie Wonder é Deus." As falácias podem ser perigosas quando procuram intencionalmente induzir ao erro. Neste caso, são chamadas de sofismas e são muito comuns na retórica da mídia e da política.

Para se fazer ciência na Antiguidade, era necessário pensar filosoficamente, quer dizer, contemplar e refletir dedutivamente. Com o passar do tempo ocorreu um processo de dogmatização, isto é, aos poucos a atividade de pensar foi substituída pelo mero comentário aos escritos dos filósofos antigos, principalmente os de Platão e Aristóteles. Na Idade Média a busca do conhecimento não podia entrar em choque com o Órganon (conjunto de textos aristotélicos) ou com a Bíblia (conjunto de escrituras sagradas), ambos considerados fontes de verdades absolutas. A assim chamada "ciência moderna" surgiu como um ato de resistência contra o dogmatismo, contra a autoridade atribuída ao aristotelismo e à f é religiosa. Buscando maior autonomia na investigação do mundo, instalaram-se um novo modelo de ciência e um novo modelo de mundo, inaugurando o que se chamou revolução científica dos séculos XVI e XVII.


A CIÊNCIA MODERNA

A famosa revolução copernicana, determinando a mudança do modelo geocêntrico (que pressupõe a Terra como centro do sistema do universo) para o sistema heliocêntrico (que coloca o Sol como centro do sistema planetário) é o principal símbolo da passagem da ciência antiga para a ciência moderna. A imagem religiosa que colocava o homem como o máximo da criação começou a ser abalada. A nova ciência distingue-se da antiga por uma mudança de método e de objetivos. Fazer ciência a partir do século XVI implica agora não apenas descrever como as coisas são, mas principalmente como as coisas funcionam. O mundo passa a ser visto como uma espécie de mecanismo cuja estrutura pode ser decifrada através da matemática. Segundo Galileu Galilei (1564-1642) - um dos fundadores da ciência moderna -, real é tudo aquilo que possa ser medido e quantificado.

Outro progresso importante é a substituição do método antigo da dedução pela indução. Ao invés de partir de leis gerais (do tipo "todos os homens são mortais") para os casos particulares ("Sócrates é mortal"), parte-se agora de casos particulares ("em dez experimentos a água ferveu a 100° C") e vai-se ascendendo até as leis de máxima generalidade ("A temperatura de fervura da água é sempre de 100° C"). Serão considerados verdadeiros somente os discursos que possam ser comprovados pela experiência.

A principal consequência da revolução moderna foi a separação da ciência frente à filosofia. A filosofia clássica perdeu o lugar de destaque como rainha do saber e passou a ser considerada como um obstáculo para o progresso da civilização. A ciência assume o posto de expressão máxima da civilização. Trata-se de uma crise sem precedentes para a filosofia, que precisou reavaliar seus pressupostos e suas metas, lá que não era mais possível dizer a verdade sobre as coisas, afinal essa tarefa estava reservada agora para a ciência, então ao menos a filosofia poderia fazer algo que a ciência não pode fazer: pensar os fundamentos da própria verdade.
Na modernidade a filosofia começou a se tornar epistemologia (do grego episteme = ciência), quer dizer, teoria do conhecimento científico. Essa transformação se manifesta, por exemplo, na obra do filósofo inglês John Locke (1632-1704). No seu Ensaio sobre o Entendimento Humano (1690), ele realiza uma investigação sobre a natureza das ideias na nossa mente, afirmando que elas não são inatas (não nascemos com elas), mas têm sua origem na nossa experiência sensível com o mundo. A questão da filosofia não é mais buscar o conhecimento da verdade, mas buscar a verdade do próprio conhecimento. Um pouco mais tarde, o filósofo alemão Kant estabelecerá que filosofia não deve mais produzir saber, mas se tornar um saber do saber, instaurando uma espécie de "tribunal da razão", "que tem por fim não o aumento dos nossos conhecimentos, mas a retificação dos mesmos" (Crítica da Razão Pura [1781], Introdução, VII). O objetivo da filosofia passa a ser então ajudar a evitar que o erro irrompa no trabalho do cientista.

A imagem do filósofo na era moderna é como a de um sentinela ou farol alertando com sua luz contra os possíveis desvios da ciência de seu caminho da racionalidade. Francisco de Goya - 1746-1828 - O Sono da Razão Produz Monstros (1796-1797).



QUESTIONÁRIO


1. Na Antiguidade, qual era a ligação entre filosofia e ciência?

2. Na Grécia antiga, como funcionava a ciências? E na Idade Média?

3. De que maneira a ciência se separou da filosofia? Descreva.

4. Comente sobre o método filosófico e o método científico.

5. O que compete à ciência? O que restou para a filosofia?

6. O que você pode concluir sobre o tema estudado?